Investimento Social e Sustentabilidade
E se pensássemos nas IPSS como infraestruturas sociais do futuro?
Por Nuno Prata
(Consultor de Inovação Social)
Não faltam relatórios a dizer que o setor social é “resiliente”. Que resiste a crises, que se adapta, que faz muito com pouco. E é verdade. Mas a resiliência, quando crónica, deixa de ser virtude — passa a ser sintoma de uma estrutura que sobrevive onde devia prosperar.
Talvez esteja na hora de mudar a pergunta. Em vez de “como conseguimos mais subsídios?”, talvez devêssemos perguntar:
“Como financiamos de forma estável e sustentável as soluções que funcionam para os desafios sociais que não desaparecem?”
O investimento social é uma dessas novas respostas. Não substitui o financiamento público, mas complementa-o com lógica, estratégia e partilha de risco. É uma forma de mobilizar capital — de empresas, fundações, cidadãos — para projetos sociais que geram impacto mensurável e retorno (social ou até financeiro).
As IPSS não têm de se transformar em startups ou consultoras. Mas têm de reconhecer que depender exclusivamente dos contratos de cooperação com a Segurança Social limita a ambição, reduz a margem de inovação e fragiliza a autonomia institucional.
O investimento social — seja sob a forma de contratos de impacto, fundos híbridos ou acordos de pagamento por resultados — obriga a pensar em escala, impacto, viabilidade. Obriga a planear com mais rigor e a medir com mais disciplina. Mas também traz liberdade para sonhar mais longe.
Há já exemplos em Portugal de organizações que diversificaram as suas fontes de financiamento, que criaram unidades de negócio social, que firmaram parcerias com empresas para financiar inovação. São poucas, ainda. Mas mostram o caminho.
E há um desafio ético por trás deste debate: como podemos esperar inovação se o sistema de financiamento apenas recompensa o que já existe? Como podem emergir soluções novas, mais eficazes, se quem arrisca não tem cobertura? O investimento social é, também, um mecanismo para partilhar a responsabilidade da mudança.
Porque os problemas sociais não são só da Segurança Social. São das cidades, das empresas, das famílias. E financiar o seu combate não é um custo. É um investimento no bem comum.
O futuro do setor social não será feito de esmolas nem de dependência. Será feito de alianças sólidas, contratos inteligentes e modelos sustentáveis.
Será feito, sobretudo, de organizações que saibam o valor do que fazem — e que exijam ser financiadas à altura desse valor.