A inovação social é um luxo? Ou uma urgência silenciosa?

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Inovação Social

A inovação social é um luxo? Ou uma urgência silenciosa?

Por Nuno Prata
(Consultor de Inovação Social)

Num país onde mais de 60% das organizações do setor social dependem quase exclusivamente de contratos de cooperação com o Estado para sobreviver, a palavra “inovação” pode parecer um capricho. Um luxo teórico que soa bem em conferências, mas que raramente chega às mesas das instituições que, todos os dias, enfrentam carências, solidão, pobreza e exclusão com recursos exíguos.

Mas e se for exatamente o contrário? E se a inovação social for não só necessária, mas inevitável?

A inovação, neste contexto, não é um chavão bonito — é uma mudança de lógica. É o abandono da gestão da escassez para abraçar a criação de valor. É deixar de fazer “mais do mesmo” para começar a fazer “melhor com o que temos”. É — como bem disse Geoff Mulgan, um dos pensadores pioneiros da área — “a capacidade de combinar novas ideias com eficácia real em melhorar a vida das pessoas”.

E essa eficácia, hoje, exige mais do que boa vontade. Exige escuta ativa dos destinatários, experimentação, avaliação e colaboração entre setores que raramente se falam. Significa, por exemplo, pensar modelos de negócio híbridos que permitam gerar receita própria. Ou envolver as pessoas em situação de vulnerabilidade como cocriadoras de soluções — e não apenas como beneficiárias passivas.

Estudos da OCDE mostram que as organizações sociais que inovam têm maior probabilidade de alcançar impacto mensurável, manter equipas motivadas e diversificar fontes de financiamento. Parece simples. Mas para que isso aconteça, é preciso também que o ecossistema permita arriscar, testar, falhar e ajustar. E aí reside um dos maiores desafios.

Portugal tem, nos últimos anos, dado passos relevantes. O instrumento Portugal Inovação Social apoiou centenas de projetos transformadores no terreno, especialmente na região Norte. Mas a transição da exceção para a norma continua por fazer. São ainda poucas as organizações que, por cultura ou por constrangimento financeiro, integram a inovação e a avaliação de impacto como parte do seu ADN.

Mudar este paradigma é urgente. Porque os problemas sociais são mais complexos, as soluções únicas deixaram de resultar, e as comunidades esperam mais do que respostas assistenciais: esperam transformação.

E a boa notícia é esta: não é preciso ser uma grande fundação ou ter uma equipa de inovação para começar. A inovação social pode nascer de um lar de idosos que repensa a forma como os utentes se envolvem nas decisões do dia a dia. De uma creche que transforma a relação com as famílias. De um centro de reabilitação que coloca os seus utilizadores a ensinar competências digitais aos vizinhos.

A pergunta certa, hoje, já não é “temos dinheiro para inovar?”. É: “temos margem para não o fazer?”

Porque o verdadeiro risco não está na mudança. Está na repetição. E, no setor social, repetir o mesmo pode significar deixar para trás quem mais precisa de respostas novas.

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